Porta da Estrela
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Arquivo: Edição de 10-12-2007

SECÇÃO: Destaque 30 anos

Colóquio comemorativo dos 30 anos do jornal Porta da Estrela debateu as “Perspectivas de Desenvolvimento do Interior Serrano”
Administradores e director do PE com os conferencistas Joaquim Luís Alcoforado, João Luís Fernandes e Pedro Carvalho
Administradores e director do PE com os conferencistas Joaquim Luís Alcoforado, João Luís Fernandes e Pedro Carvalho
Serra da Estrela tem «que se afirmar pela diferença»

No colóquio “Perspectivas de Desenvolvimento do Interior Serrano”, organizado pelo jornal Porta da Estrela no âmbito da comemoração dos 30 anos da sua publicação, os conferencistas Joaquim Luís Alcoforado, João Luís Fernandes e Pedro Carvalho, todos professores da Universidade de Coimbra (UC), conjugaram a sua perspectiva pessoal sobre o tema com as estratégias e programas de acção previstos no Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN). O debate teve lugar no auditório da Escola Profissional da Serra da Estrela, em Seia, no passado dia 1 de Dezembro, e acolheu uma vasta plateia de participantes muito interessada em reflectir sobre o desenvolvimento do Concelho e da Região.
Joaquim Luís Alcoforado, docente da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da UC, que desempenhou as funções de Delegado do IEFP do Centro entre 2003 e 2005, abriu a sessão tratando o tema “Educação e Recursos Humanos”. Começou por convidar o público a pensar sobre «a encruzilhada em que nos situamos neste momento no que respeita à Educação e Formação», acrescentando: «Se calhar, a encruzilhada iniciou-se mais ou menos nestes termos: em 2000 Portugal presidia também à União Europeia e realizou-se em Lisboa uma conferência que foi particularmente dirigida a estas questões da Educação e dos Recursos Humanos. Na altura, foram definidas algumas metas e algumas finalidades ambiciosas. Disse-se que a União Europeia (UE) ambicionava ter uma economia baseada no conhecimento e isso só se conseguia se investíssemos de forma integrada, concertada e continuada na educação e na formação de recursos humanos».
As metas impostas pela UE eram então as de que «85 por cento dos jovens europeus tivessem uma formação de nível secundário até ao ano de 2010. Depois, era fundamental investir na qualificação dos recursos humanos dos trabalhadores europeus. E aí começavam os problemas para Portugal, que tinha cerca de 45 por cento dos jovens (dados do Censos de 2001) a abandonar o sistema educativo sem concluir o secundário», referiu o docente da UC, que sublinhou ainda que «as qualificações se baseavam essencialmente em dois grandes pilares: sistemas educativos e de formação que pudessem permitir às pessoas ter um diploma e convenções colectivas de trabalho que dessem uma dimensão social ou socioprofissional a estes diplomas».
Luís Alcoforado disse também que Portugal «esteve sempre muito limitado nos sistemas educativos que pudessem contribuir para a obtenção de diplomas profissionais. Por outro lado, nós nunca tivemos sérias convenções colectivas». Assim sendo, «continuávamos com problemas estruturais e não tínhamos qualificações que se comparassem minimamente com os nossos parceiros. Tínhamos níveis de escolaridade baixíssimos e tínhamos principalmente índices de produtividade que eram muito mais baixos que os dos nossos parceiros, na altura a 15. Hoje, a 27, estamos um pouco mais acima, mas estamos a dois terços da média comunitária», frisou.
No que respeita ao QREN, referiu que «será mais uma grande oportunidade para nós transformarmos as pessoas e os sistemas produtivos, mas também para transformarmos as empresas, e criarmos cidades, vilas e aldeias educadoras; e se criarmos em simultâneo desenvolvimento cultural, social e económico». Disse também que este instrumento financeiro, que vai estar disponível até 2013, do ponto de vista da formação «estabelece dois grandes objectivos: uma formação de dupla certificação, que leve um milhão de activos portugueses a aumentar o seu nível de escolaridade em simultâneo com o seu nível de qualificação profissional; o segundo objectivo tem em vista aproximar a formação dos contextos de trabalho».


João Fernandes considera a água um valor estratégico e ambiental decisivo

João Luís Fernandes, geógrafo e professor da Faculdade de Letras da UC, considera o Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) «um dos mais carismáticos à escala nacional e até mesmo internacional», por ter uma «imagem muito forte», sendo, por isso, uma área muito procurada, não apenas por turistas que procuram a neve, mas também, por exemplo, por geógrafos, geólogos ou por especialistas do território, «que vêem na Serra da Estrela aquilo que não encontram noutros lugares». O investigador referia-se concretamente à geomorfologia glaciar, cujos traços «estão bem marcados neste espaço; e é preciso acarinhá-la, sublinhando de forma muito forte esta qualidade».
Intervindo no âmbito painel “Ambiente e Desenvolvimento Territorial”, João Luís Fernandes adiantou que desde 1986 – ano em que Portugal aderiu à Comunidade Económica Europeia (CEE) – «a grande aposta tem sido a rede das rodovias, o que tem levado a uma reorganização do mapa de Portugal». Considerou que o desenvolvimento não ocorreu ao longo dos eixos mas «nos pontos de intersecção» dos IC’s, IP’s e auto-estradas «e que é no Interior que encontramos algumas situações de maior depressão socioeconómica, que de certa forma nos tem conduzido a um discurso da valorização pela diferença». «Como não estamos nestes eixos estruturantes, não somos um desses nós importantes de concentração das densidades de poder político, de poder económico, que estão muito próximos um do outro. Temos, pois, que nos afirmar pela diferença», referiu o investigador, que destacou o património, a paisagem e o ambiente, «que nos é apresentado quase como uma “national equity” vendável; mas temos que encarar o problema de outra forma», alertou.
João Fernandes aproveitou também a ocasião para apresentar pela primeira vez em público alguns elementos de um estudo que uma equipa constituída por investigadores da sua Faculdade e de outras Universidades realizou em Loriga, freguesia do nosso Concelho, estudo esse elaborado junto dos mais jovens. «Mostra-nos que o ambiente, antes de ser uma mercadoria vendável para o exterior, deve ser uma mais-valia para quem aqui vive».
Um dos resultados desse inquérito, que foi realizado junto de 100 alunos da Escola Básica do 2º e 3º Ciclos Dr. Reis Leitão, «é extremamente significativo», porque quando foram questionados sobre onde queriam desenvolver o seu futuro, «80 por cento dos jovens disseram-nos que pretendem sair e desenvolver as suas actividades fora desta região», algo que passa, afinal, por «reconstituir ciclos migratórios que já estão constituídos». Outro dado preocupante é o de que esses jovens que pretendem partir, nomeadamente para a Área Metropolitana de Lisboa, onde têm familiares, apontam como principais motivações da sua decisão o emprego e o lazer.
Curiosamente houve uma resposta que não surpreendeu os investigadores. Cinquenta por cento respondeu que não gosta das paisagens ardidas, adiantando que os incêndios «são uma violência para a nossa identidade e para a imagem do lugar onde nós habitamos». «Portanto, antes de pensarmos num ambiente para viver, temos que o fazer é bem, pois há que pensar também no ambiente para as populações residentes, porque é nelas que reside o futuro destas regiões». Por outro lado, o estudo mostra que os jovens são també, extremamente sensíveis à água como valor estratégico e decisivo para o século XXI.
Não estranhando o comportamento demográfico de Loriga, até porque «acompanhou, em termos relativos, a dinâmica demográfica do território continental até aos anos 40/50», alertou, contudo para o seguinte facto: «Desde aí tem sido um afastamento progressivo que tem a ver com toda a crise industrial». E João Fernandes refere que no seu entender a “salvação” e a confiança da região passam pelo Turismo. Contudo, sublinha que este discurso de «solução para todos os problemas não pode ser assim se não mudarem algumas questões estruturais», nomeadamente no que toca à gestão do PNSE.
«Um dos problemas de despovoamento do Interior Serrano tem a ver com a perda de actores e de agentes de desenvolvimento. E é aqui, com muita pena minha e garantidamente de todos, que uma instituição que poderia, de facto, ser um vector de desenvolvimento, como o é em muitos países, acaba por ser neste quadro legal uma oportunidade que não se tem. O que falta aqui nesta Serra da Estrela é a união de peças geográficas que têm problemas comuns e o que lamentamos é que existem instituições que poderiam fazê-lo, e que unem de facto este território serrano, e por modos de funcionamento do Estado não tem efectivado esse papel», critica.
O investigador aproveitou para apresentar um exemplo de sucesso de parques naturais regionais franceses, «que são um vector de desenvolvimento local, um vector de afirmação de economias locais, de fixação de população, parques esses cuja gestão não tem rigorosamente nada a ver com o das áreas protegidas em Portugal». Nos parques franceses «tudo parte de uma Carta do Território de longo prazo que é um Plano Estratégico consensual, trabalhado por empresas turísticas, pelas entidades políticas locais e por representantes dos residentes».
A outra questão que preocupa João Fernandes tem a ver com a gestão dos parques naturais e com a nova lei orgânica do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, porque «os parques naturais vão ser geridos menos à escala local e mais à escala regional». Recorde-se que o PNSE já está a ser gerido com as áreas protegidas do Centro e do Norte do Alentejo, «o que é um afastamento» em relação ao modelo francês.


Defender a marca Serra da Estrela

O geógrafo e professor da Universidade de Coimbra criticou também o facto de a marca Serra da Estrela poder vir a ser integrada na Região de Turismo do Centro (RTC). «Não é admissível que se dilua uma imagem como a da Serra da Estrela numa hipotética RTC», até porque a Estrela é «um território com uma imagem muito forte e esta imagem não pode ser diluída em áreas sem identidade».
Sublinhou que a «única ligação» que Coimbra tem à Serra da Estrela é o Mondego. Nesse sentido, sendo a Serra um dos destinos turísticos mais procurados no País e onde nascem os dois mais importantes rios portugueses – Mondego e Zêzere, com este a abastecer a população de Lisboa –, propôs que seja criado um “cluster” da água, pelo facto de a Serra possuir este «grande recurso do século XXI». «Uma das maiores riquezas da Estrela é a água, que tem um dos maiores reservatórios hídricos da Península Ibérica. Estamos a falar de uma Serra onde nascem os dois principais rios portugueses e cuja qualidade da água pode ser controlada por nós; e não acontece o mesmo com o Guadiana, com o Tejo ou com o Douro», evidenciou.


Pedro Carvalho apela no sentido de que se execute uma maior e melhor preservação do património cultural

O arqueólogo Pedro Carvalho entende o património cultural como «um vector de desenvolvimento local». Ou seja, «não é uma panaceia, não é uma solução que resolve tudo, mas pode ajudar, sobretudo em regiões do Interior como a nossa, com perda preocupante de população».
Este professor da Faculdade de Letras das UC, que falava no âmbito do painel “Património e Cultura”, salientou que o QREN define para a valorização económica dos territórios menos competitivos a «aposta dos recursos endógenos com mais potencialidade de exploração», nomeadamente o património histórico, cultural, natural e arquitectónico «considerado de grande valia susceptível de alicerçar dinâmicas económicas e de valorização do território e em torno do qual faça sentido construir uma estratégia de desenvolvimento de médio e longo prazo», destacando também os investimentos a realizar no domínio da Cultura, particularmente os relativos à salvaguarda e valorização do património cultural e às redes de equipamento culturais.
O investigador sublinhou que a força desta região «é o património natural diversificado com qualidade paisagística e valia ambiental, articulado com o património histórico e arquitectónico, com a identidade cultural e os produtos regionais com tradição e qualidade». Como fraquezas, o QREN diagnostica a fraca acessibilidade intra-regional, isolando o Interior e, no seu entender, «a dificuldade em estabelecer parcerias, quer sejam intermunicipais ou entre o público e o privado».
Ao apresentar várias imagens da Serra, referiu que os concelhos serranos poderiam explorar «a marca dos Lusitanos, algo mítico que está relacionado com a nossa nacionalidade, com as nossas raízes, mas é uma marca que não tem sido tratada e explorada nesta perspectiva. Aliás, arriscamo-nos a perder aquilo que ainda resiste destes nossos antepassados se não adoptarmos atempadamente medidas que protejam os povoados que ainda subsistem nas encostas da Serra e que poderão ter sido ocupados por estes povos há mais de dois mil anos». Pedro Carvalho fazia referência às antas, às covas e caixões da Moura, às estradas romanas, «património muitas vezes esquecido e que podiam ser factores de desenvolvimento».


Debate animado

Depois das intervenções destes especialistas, e sob moderação de Albano Figueiredo, director do PE, foram vários os presentes que retomaram alguns dos principais aspectos trazidos à discussão, num debate muito empenhado e que, no seu conjunto, ocupou cerca de 2 horas e 30 minutos.
Preocupações com o desenvolvimento económico do Interior serrano e com a defesa do património histórico e ambiental foram os elementos mais focados por uma plateia onde se encontravam variadíssimos senenses, nomeadamente políticos, professores, advogados, engenheiros, operários e técnicos especializados, entre outros, todos leitores assíduos do nosso jornal.

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