Porta da Estrela
Edição de 21-07-2010
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Arquivo: Edição de 30-06-2009

SECÇÃO: Cultura

O filme “Os Lobos”, de Rino Lupo, 1923
O concelho de Seia na História do Cinema Mudo em Portugal (Parte III)

Esta fotografia localiza um dos décors do filme. Trata-se do átrio de entrada da casa de Isaac Fonseca, em Valezim, que mantém a traça. (Colecção Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema)
Esta fotografia localiza um dos décors do filme. Trata-se do átrio de entrada da casa de Isaac Fonseca, em Valezim, que mantém a traça. (Colecção Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema)
Recordando a rodagem do filme “Os Lobos”, em Valezim… (Entrevista com António Marques) (1)
“Então não me lembra! Se lembro! – diz António Marques, um provecto valezinense, enquanto conta o que foi possível lembrar-se, oitenta e seis anos após os factos, que remontam a Novembro e Dezembro de 1922 e a Janeiro e Fevereiro/Março de 1923.

Seria difícil encontrar alguém que ainda fosse capaz de nos confirmar a passagem por Valezim dos intervenientes do filme “Os Lobos”. Tentámos, e através de pessoa amiga, chegámos à conversa com António Marques, natural e residente em Valezim, que no próximo dia 5 de Julho completará 100 anos de idade. Teria, pois, 14 anos, na data do acontecimento. Aceitamos ser possível não esquecer o “rebuliço” vivido na época, como resultado da presença de pessoas de outra região, e que teriam provocado grande alteração na pacatez da vida de Valezim da época.

Porta da Estrela (PE):
Sr. António, em finais de 1922 e inícios de 1923, em Valezim, andaram por aqui uns artistas a fazer um filme. Lembra-se de tal coisa e dos sítios onde filmaram?
A Capela de São Domingos com alpendre e sem telhado, em Valezim. (Colecção Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
A Capela de São Domingos com alpendre e sem telhado, em Valezim. (Colecção Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema
António Marques (A.M.):
Então não lembra! Foi lá cima no Carvalhal. Arrastavam daqui lá para cima as torgas secas e acendiam-nas lá no alto. Faziam um monte e deitavam o fogo para fazer fumo e carvão. (2) Era lá num “talegre” que lá havia. Eles não carregavam nada às costas…
PE: Pois é. Vinham lá das capitais…
A.M.: Pois vinham. Eles traziam aquelas máquinas grandes, antigas…antigas …daquelas com trapézios (são tripés) que deitavam um pano por cima.
PE: E aqui em Valezim?
A.M.: Andaram ali naquela ponte, que é a ponte romana. Ficavam ali uns moinhos. Olhe, havia dois deste lado e lá abaixo o do Isaac, que tinha também um moinho ali.
PE: Mas lembra-se deles andarem a filmar aqui em Valezim…
A.M.: Era…era nestes sítios que eles viam que ficavam melhor para aparecer noutros lados. Aquilo era para ser vendido, claro. Iam ganhar dinheiro, senão não o andavam a gastar…
PE: Mas, eles filmaram aqui na casa onde hoje fica o clube?
A.M.: Ah. Pois. Filmaram toda a Casa Real! Casa Real! Até lá estão as armas reais. Havia lá uns homens…eram todos importantes.
PE.: É a Casa dos Castelo Branco (3) gente nobre.
A.M.: É. Andaram lá em frente e naqueles quintais e na casa.
PE: Porque é que chama a Casa Real?
A.M.: Porque havia cá homens…reais…gente nobre, claro. Agora não há cá ninguém como nesses tempos. Naqueles tempos havia aqui homens rijos e tesos.
A.M.: Deixe-me cá ver. (E aponta para uma foto). (4) E diz: Estes eram dos que cá andaram.
PE: Então lembra-se dos artistas cá andarem?
A.M.: Eles lá andavam nessas comédias com as raparigas…bem, com as mulheres, que elas eram uns mulherões. Eu não sei, mas agora já não há mulheres da estatura que aquelas tinham. As mulheres agora são mais pequeninas. (E arranca uma estrondosa gargalhada) Eram uns mulherões. Lembra-me muito bem. Eu já tinha idade. Já andava com os rebanhos por aí.
PE: Há uma fotografia que apresenta um casamento na Senhora da Saúde…
A.M.: Mas ainda não estava como agora…era terra em volta…não tinha escadaria nem muros.
PE: Convidaram pessoas daqui para serem figurantes, lembra-se?
A.M.: Sim…Sim…Então, eles traziam tanta gente. E carros! Transportavam tudo de carro. Não vinham a pé, pois já havia caminho. Eu lembro-me. Eu vi. Eu também era danado para ver. Entregava as ovelhas a um irmão meu e ia ver. Eu gostava de espreitar aquilo.
PE: Então lembra-se disso?
A.M.: Então não me lembra! Se lembro! Muito bem até. Aquilo era uma seita do “carago”, também lhe digo.
PE: O Sr. António tinha 14 anos. Portanto, uma idade que lhe permitiu registar o que se passou. Lembra-se se essa gente pernoitava em Valezim ou iam e vinham todos os dias?
A.M.: Iam e vinham.
P.E.: Para onde, não sabe?
A.M.: Era para Seia, porque o Zé Morgado (com carro de aluguer em Seia na época) é que os trazia e levava. O Zé Morgado tinha um carro…um carrão vermelho…aquilo andava! Eles andavam em dois carros, não era só um. E então não tinham lotação. Era os que cabiam.
P.E.: O Senhor António conheceu três homens na fotografia…
A.M.: Ah. Pois conheci. Eram os que estavam mais melhor de se conhecer. Naquele tempo Valezim era muito sossegado. Apareceu aqui aquela rapaziada…foi uma revolução, um desassossego…
Pois foi. Todos gostavam de ver. Andaram a espreitar como eu. Eu já tinha 14 anos.

O testemunho é válido, e especialmente no episódio que refere a feitura do carvão com as torgas, pois é uma das cenas bem marcantes do filme.


A exibição do filme “Os Lobos”, 1923

Para além das exibições inseridas na ante-estreia, estreia e reposição (versão com 8 partes, todas em 1923), e depois na apresentação da versão de reposição (em 1924), o filme, segundo Manuel Félix Ribeiro, alcançou dimensão internacional pois foi exibido em diversos países (Brasil, Espanha, França, Itália e Roménia). (5) Não conseguimos apurar se o filme “Os Lobos”, apresentado em 1923 e em 1924, foi visto nas localidades de rodagem, ou se alguns habitantes do concelho de Seia estiveram presentes nas exibições de 1923 e 1924. De facto, só investigações mais demoradas poderão esclarecer isso mesmo.
Em Seia, nos finais da década de 20 do século XX, existia uma sala para projecção de filmes, boa para a época, com plateia, geral e camarotes, afecta à Associação de Socorros Mútuos Senense (6) e localizada na Rua 1.º de Dezembro, nas traseiras do actual edifício da Câmara Municipal de Seia.
Por volta de 2001, abordou-se com José Alberto Ferreira Matias, de forma ocasional, a história da exibição cinematográfica em Seia.
Com a publicação presente achei por bem averiguar se o filme teria sido exibido em Seia, pedindo a sua colaboração, a partir da leitura das edições da imprensa local depositadas no Arquivo Municipal de Seia. Em particular, e como ponto de partida, a investigação incidiria sobre o jornal “A Voz da Serra”, fundado pelo seu pai, Luís Ferreira Matias. Oportunamente, aguarda-se o resultado desta diligência através da elaboração de um artigo, da sua autoria, de enquadramento complementar a esta investigação.


O legado do filme “Os Lobos”, 1923 – Algumas sugestões

No Centro de Documentação e Informação da Cinemateca Portuguesa (Arquivo Fotográfico), existe um conjunto de registos fotográficos da rodagem do filme, da autoria do actor José Soveral, em formato analógico. Consultou-se o acervo, constituído por 77 fotografias (algumas repetidas a partir dos originais), e que está preservado e deve ser alvo de investigação para publicação pertinente. (7)
Cabe aos habitantes de Seia, São Romão e, principalmente de Valezim, solicitar diligências que concretizem uma possível obtenção deste património fotográfico, salvaguardados os direitos reservados, para poder ser visto e apreciado sempre que desejado, não deixando de vincar o enorme interesse deste espólio para a comunidade escolar e académica (Escolas e Escola Superior de Turismo e Hotelaria de Seia). Só através da Câmara Municipal de Seia, da Fototeca Municipal e das Juntas de Freguesia, tal será possível.
Também fica um desafio ao CineEco. A vida e obra de Rino Lupo e o filme “Os Lobos” justificam a promoção de um ciclo de cinema mudo temático, onde se incluiria a exibição descentralizada do filme no concelho de Seia.
Pelo interesse de fundamentação, a Câmara Municipal de Seia e as Juntas de Freguesia de Seia, São Romão e Valezim podiam promover uma sessão de apresentação dos livros de Manuel Félix Ribeiro e de Tiago Baptista. (8)
Num entendimento entre a autarquia, a Delegação Regional da Cultura do Centro do Ministério da Cultura e a Região de Turismo da Serra da Estrela podia resultar a criação de uma rota de monitorização turística do cinema mudo (e sonoro) na Serra da Estrela, tendo em conta não só o valor histórico e cultural deste filme mas também de outros registos cinematográficos mudos e sonoros depositados na Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema.
O contributo histórico e cultural protagonizado por Rino Lupo e pelo filme, justificam a inclusão do nome do realizador e do título “Os Lobos” na toponímia das localidades do concelho de Seia, associadas à rodagem do filme.
Por fim, deixamos a sugestão para a edição videográfica da obra. A exemplo de outros filmes (embora sonoros), transcritos para vídeo digital a partir das cópias restauradas pela CP-ANIM e com a salvaguarda dos direitos reservados, a edição videográfica do filme “Os Lobos” (versão de reposição de 1924, dado não existirem exemplares da versão de estreia) seria um êxito, devido ao arreigado bairrismo e identidade dos habitantes e comunidade imigrante das localidades eternizadas pela rodagem do filme.


Agradecimentos e Dedicatória

A concretização desta investigação só possível graças à colaboração de vários cidadãos e entidades, a saber: Alberto Monteiro, Anabela Ferraz, Antero Dobreira, António Freitas, António Marques, Avelina Silva Campos, Augusto Lopes, Guida Lami, João Ferreira da Fonseca, José Alberto Ferreira Matias, José Manuel Brito, José Seabra Figueiredo, Luís Dias Costa, Miguel Bandeira, Paula Dobreira, Rui Madeira e à Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema (nas pessoas de Luigi Pintarelli, Joana Ascensão, Piedade Braga Santos, Pedro Mexia, Maria de Jesus Ribeiro, Rui Machado, Sara Moreira e Tiago Baptista).
A investigação agora publicada é dedicada a Andrea Ribas Marques, Cláudio Lupo Simon e Mónica Marques Queiroz (9), descendentes de Cesare Rino Lupo, assim como a Tiago Baptista, notável investigador e conservador da Cinemateca Portuguesa – Arquivo Nacional das Imagens em Movimento.


Carlos Dobreira




(1) A entrevista foi conduzida por Antero Dobreira, com a colaboração de Augusto Lopes. O tratamento das questões previamente estabelecidas como resultado da observação do filme e do reconhecimento pedonal e fotográfico de locais (12 e 19 de Abril de 2009) foi realizado em Braga, por Carlos Dobreira e com a colaboração de Avelina Silva Campos. Nas respostas de António Marques não se alterou a linguagem popular registada.
(2) Trata-se de cenas do filme em que se vêem as personagens, em plena serra, a produzirem carvão de forma artesanal.
(3) Aproveitamos para alertar para o estado de degradação em que se encontra o brasão da Família Castelo Branco. Seria importante proceder a intervenção qualificada para a sua preservação.
(4) A fotografia apresenta Artur Costa de Macedo, director de fotografia do filme e os actores José Soveral (Ruivo) e Joaquim Almada (Tónio).
(5) Manuel Félix Ribeiro, Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português, 1896 – 1949, Lisboa, Cinemateca Portuguesa, 1983, p.165.
(6) Esta instituição foi fundada em 6 de Fevereiro de 1927.
(7) A reprodução destas fotografias pode ser realizada para investigadores e instituições, mediante exposição dirigida à CP-MC.
(8) Para além do citado na nota 5, registam-se mais dois livros de referência e que também integram acervo fotográfico pertinente, a saber:
- Tiago Baptista, As Cidades e os Filmes – uma biografia de Rino Lupo, Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema, Lisboa, Abril de 2008;
-Tiago Baptista, A Invenção do Cinema Português, Lisboa, Tinta-da-China, Edições, Outubro de 2008. (Parte I, O Espelho da Nação, p. 13. Neste livro encontramos uma referência ao filme Os Lobos, de Rino Lupo, com destaque para cinco fotografias ampliadas de locais de Valezim nas páginas 28 a 31)
(9) A investigação agora publicada foi dada a conhecer à bisneta de Cesare Rino Lupo.

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