|
O concelho de Seia na História do Cinema Mudo em Portugal (Parte II)
 |
| Uma cena do filme realizada junto à Capela de São João, em Valezim. (Colecção Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema) |
Visionamento do filme “Os Lobos”, de Rino Lupo, 1923 No passado mês de Abril, foi possível observarmos o filme “Os Lobos” na Cinemateca Portuguesa – Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (CP-ANIM) (1), em concreto, a versão de reposição (1924), restaurada em 2004 e composta por 6 partes. O filme inicia-se com os autores a observar um exemplar da peça de teatro “Os Lobos”, numa mesa duma sala, na presença do realizador, e um suposto guião de adaptação ao cinema. Surgem a praia do Molhe na Foz do Douro e Leixões. Ruivo (José Soveral) é o “lobo” marítimo e aparece numa pequena embarcação em conversa pouco amigável com o marinheiro Sílvio (Francisco Amores). O motivo é passional, de acordo com a legenda (intertítulo) que diz: ”nega…nega…tu e a minha mulher! …”. Ruivo responde dizendo: “mulheres …são como as ondas…”. A discussão anima e transforma-se numa luta violenta, ante o olhar estupefacto de várias pessoas que, na praia, interrompem o amanhar das redes. A luta termina com o assassinato de Sílvio, à facada. O corpo do marinheiro é retirado do barco. Ruivo é preso pela polícia. Vê-se o casario da Foz do Douro como fundo desta cena (2). Após algum tempo preso, a justiça desterra Ruivo para o degredo na Serra da Cabreira. No filme, Rino Lupo transporta todo o imaginário paisagístico e antropológico da Serra da Cabreira para a Serra da Estrela. Na peça de teatro, o primeiro acto decorre na “Inverneira” da Varziela, cerca de 1,5 quilómetros para nascente de Castro Laboreiro, sendo que o segundo e terceiro actos localizam-se na “Veranda” da Seara, zona montanhosa. Entretanto, surge a Fonte das Quatro Bicas em Seia e, depois, diversas vistas de Valezim, nomeadamente a partir do alto de Sazes, vendo-se um forno em zona altaneira (3) por detrás da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Sam Gens (Eduardo Rios), é um serrano que introduz Ruivo na comunidade. É apresentado um intertítulo com a afirmação de Sam Gens: “Já sei que Tónio se casa. Venho ao cheiro das bodas. É amanhã, não é?”, a que responde Águeda (Sarah Cunha), noiva de Tónio, “Se Deus quiser!”. O filme prossegue apresentando a encosta de Valezim e os seus cômbaros. “E o teu Pai, Luzia?”, pergunta Sam Gens. Vê-se uma cascata na ribeira de Valezim, um burro carregado de lenha, puxado à rédea pelo Tio Gemil (Manuel Batista), que carrega um pinheiro às costas. Num forno comunitário, Luzia (Branca de Oliveira) prepara o mesmo para a cozedura do pão, carregando-o de rama de pinheiros, na presença sedutora de Ruivo, o qual pergunta ao Tio Gemil: “Nunca viu o mar, tio Gemil?”. Surge Gardunho (Joaquim Avelar), personagem perverso, correndo atrás de um carneiro tresmalhado, que acabará por matar (4). Perante o seu rebanho, Tobias constata a falta de um carneiro e exclama com lamento: “Nosso Senhor, falta-me o pedrisco, será lobo?”. Ruivo introduz-se na vida da terra e procura uma cama para dormir. O Tio Gemil diz que não existe hospedagem para o Ruivo, mas pode dormir no moinho velho, e aconselha-o a trabalhar. Aparece Tónio (Joaquim Almada), o montanhês, que se encontra com Águeda, sua noiva, tendo por fundo de imagem uma parede rústica em granito. Vemos muros de divisão de propriedades e caminhos, uma ponte antiga, talvez a ponte romana de acesso à Capela de São Domingos.
 |
| Esta fotografia apresenta os actores do filme num intervalo das filmagens, em Valezim.(Colecção Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema) |
Junto à ribeira de Valezim, uma aldeã, com traje minhoto, carrega uma canastra com hortaliças. Os trajes são tipicamente minhotos e correspondem ao enquadramento da peça de teatro. Surge a torre sineira da Capela de São João e o sino anuncia o “toque das Trindades”. As personagens rezam: “Ave-maria, cheia de graça, guardai o meu rebanho…”. Tendo como fundo mais uma linda paisagem de Valezim, vista do alto de Sazes, os intertítulos mostram-nos: “Rogai por nós pecadores”. Gardunho também reza. O filme proporciona um momento da lida rural. Andreza (Flora Frizzo), a mãe de Tónio, lava os pratos numa gamela de madeira, amassa-se o pão numa masseira e é depois tendido para ser colocado no forno. Numa lareira antiga cozem-se as hortaliças em grandes caldeiras de cobre, suspensas por correntes de ferro. Tónio côa o leite, vê-se cestaria e o fumeiro. Realiza-se o cerimonial de bênção para o pão. Águeda faz cruzes sobre a massa. Na peça de teatro, esta tradição é associada à seguinte reza: “Sam Mamede te levede, Sam Vicente te acrescente” (5). Carregam os tabuleiros à cabeça protegida por uma “rodilha”. Tudo isto num cenário representando um amplo pátio interior de uma habitação rural de Valezim, claramente um dos “décors” preparados para o filme, cuja localização exacta não foi possível apurar. Avista-se a rua do Cabo, em Valezim. Enquanto decorre a cozedura do pão, as três jovens que transportaram os tabuleiros trocam impressões entre si, enquanto apreciam uma racha de lenha, efectuada por dois homens, que chegaram com uns pinheiros às costas. O filme prossegue com o intertítulo “As prendas do Noivado”. No cenário em que tem decorrido a cena de vida rural, Águeda, a noiva, recebe prendas de casamento sob o olhar do seu noivo. Entretanto, o realizador transporta-nos para mais uma cena da vida serrana, mostrando a chegada de um rebanho à aldeia proveniente do pasto na serra. Assiste-se à recolha do rebanho numa corte e surge um cão pastor, numa travessa de Valezim, por identificar. Somos surpreendidos ao vermos a Capela de Nossa Senhora da Saúde sem a escadaria hoje existente, e com o largo ainda despido de arvoredo. Realiza-se o casamento. O cortejo sai da Capela, encabeçado pelos noivos, com intérpretes do filme e figurantes de Valezim. É apresentada a boda que decorre numa cozinha típica (6) de Valezim, com a presença de Ruivo, recebido com desconfiança. Um serrano toca concertina e Ruivo deslumbra com a sua guitarra e voz enquanto se legenda: “as ondas do mar são brancas…”. As personagens cantam. Surge o fontanário da Abilheira, onde duas mulheres enchem os seus cântaros. Retrata-se o pastoreio da serra. Tobias (Santos Castro), guardador de cabras, “arranca da sua flauta agreste notas de melodia rústica.” (7) A ele se opõe o encanto que anda no ar devido ao dom de Ruivo no canto da sua voz e no toque da sua guitarra. O enredo ganha vivacidade com a denúncia de Gardunho, por Ruivo, como o autor do roubo das ovelhas. A comunidade decide perdoá-lo por ocasião da Semana Santa, mas Gardunho ausenta-se. Ao nascer do Sol surge um local de rodagem preservado que posiciona as filmagens junto à Casa do Manuel do Desterro, em São Romão, na Senhora do Desterro. Existe um registo fotográfico desta cena, tendo-se confirmado por familiares a veracidade do local, podendo admitir-se, que, na versão original, de 8 partes, mais cenas tenham sido rodadas nesta localidade, dado que na existente parece reconhecerem-se algumas paisagens da zona. Noutra cena vê-se a Igreja Matriz de Seia e o burgo histórico envolvente, com Gardunho posicionado no antigo caminho que ligava Seia a São Romão, de regresso a Valezim onde pretende vingar-se de Ruivo. O filme reporta-nos a mais umas paisagens rurais de Valezim, a saber: o típico “carro de bois”, as lareiras fumegantes, um grupo de moças transportando à cabeça as “taleigas” com farinha que foram carregar ao moinho, este também enquadrado na queda de água que faz movê-lo. Entretanto, Ruivo prossegue o galanteio de Águeda, sem conhecimento de Tónio, e também de Luzia. A revelação do adultério de Águeda é feita por Gardunho que diz para Tónio:”Bateu a noite à tua porta com a traição lá dentro” (8). Perante a incredulidade de Tónio, Gardunho insiste:”Vi-o eu com estes olhos que a terra ainda não quis comer.” (9) Perante as paisagens serranas, uma mudança de cenário leva-nos à Foz do Douro com imagens das ondas batendo fortemente nas rochas, enquanto que sobre estas, três mulheres aparecem-nos numa cena dos primeiros e arrojados “nús” do cinema português. Rino Lupo segue o desfecho da peça, mas altera o “modus operandi”. Na peça de teatro, Tónio, golpeado na cabeça por Ruivo, consegue com uma machadada certeira ferir de morte Ruivo na cabeça. No filme, o lobo da serra (Tónio) e o lobo do mar (Ruivo) lutam com ferocidade em zona altaneira, pensamos que na zona do actual Cabeço do Crasto de Valezim (Demestre ou Darnelas) mas, no final, Tónio fere de morte Ruivo com uma dentada no pescoço. Tónio esconde-se num rochedo próximo. Eis que surge Gardunho, deambulando pelas serranias e, perante o corpo inanimado de Ruivo, agita-o e cheira-o, com faro de lobo. No final do filme, dá-se o pôr-do-sol, surge a Igreja da Misericórdia de Seia e o toque do sino na torre sineira.
Carlos Dobreira
(continua)
(1) Com Carlos Dobreira, Antero Dobreira e Guida Lami. No final, realizou-se uma breve entrevista com Tiago Baptista, Conservador e Investigador da Cinemateca Portuguesa. (2) Fizemos o reconhecimento da Foz do Douro com a jornalista Avelina Silva Campos e identificaram-se os locais de rodagem do filme. O amanhar das redes (conserto e reparação) foi filmado junto ao Molhe, em frente ao actual Restaurante Asa Delta (praia do Molhe). A detenção de Ruivo foi filmada na ponta da praia do Homem do Leme. Ambos os locais estão integrados no complexo metamórfico da Foz do Douro. (3) Trata-se de um dos décors; (4) Os autores da peça de teatro “Os Lobos” apresentam Gardunho como um perverso de “necrofilia bestial, incarnando em figura humana a ferocidade obscura da brenha.” (5) Os Lobos, de Francisco Lage e João Correia de Oliveira, peça rústica em três actos, Companhia Portuguesa Editora, Porto, Dezembro 1921, Acto I, p. 18; (6) A imagem desta cozinha típica de Valezim ficou preservada através de registo fotográfico obtido pelo actor José Soveral. (7) Os Lobos, Acto II, p. 98; (8)Os Lobos, Acto III, p.185; (9) Idem, p.185;
|