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SECÇÃO: Cultura

Os Lobos ("vistos" por Guida Lami)

“A neve na Senhora do Desterro Casa do Manuel do Desterro Neste local filmou-se uma scena dos Lobos.” (Fotografia de José Seabra Figueiredo)
“A neve na Senhora do Desterro Casa do Manuel do Desterro Neste local filmou-se uma scena dos Lobos.” (Fotografia de José Seabra Figueiredo)
Volvidos mais de oitenta anos sobre a data da estreia do filme “Os Lobos” (7 de Maio de 1923), de Rino Lupo, a sua apreciação tem de basear-se em critérios diferentes daqueles que se aplicam aos filmes de hoje, em tudo diferentes daqueles que foram vistos pelas primeiras gerações do século XX.
Um filme mudo deve ser apreciado, do ponto de vista do seu impacto no público, tendo em conta aspectos como a qualidade da imagem, a qualidade da interpretação, a qualidade do argumento, o enquadramento na paisagem exterior ou a reconstituição dos ambientes interiores.
De forma sucinta, consideraremos estes vários aspectos, tendo em conta o facto de o filme observado ter sido posteriormente restaurado em 2004, com meios tecnológicos pertinentes.

Imagem – a preto e branco e de boa qualidade, nítida e contrastada, permite um agradável visionamento, quer das pessoas, quer dos ambientes, sobretudo dos que retratam os interiores.
Interpretação – tal como é característico dos filmes mudos, os intérpretes têm de exprimir sentimentos, intenções e objectivos mercê da sua expressão corporal, o que é bem conseguido no filme talvez até, por vezes, com um certo exagero.
Argumento – a história do filme baseia-se numa tragédia amorosa com todos os ingredientes próprios do estilo: amor, ciúme, traição, vingança e morte. Pelo facto de o filme não ser sonoro, as várias fases do argumento são interrompidas por intertítulos que de certa forma auxiliam a compreensão do argumento.
Enquadramento na paisagem – as cenas de exterior, filmadas em diversos locais da Serra da Estrela e outros, permitem reconhecê-los graças a pormenores, como casas, fontanários ou igrejas, ainda hoje existentes. As cenas que decorrem em ambientes interiores reconstituem-nos cuidadosamente, focando pormenorizadamente quer objectos, quer os respectivos enquadramentos.

Comentário

O nome do filme induz o espectador em erro já que os lobos não são os animais ferozes da Serra, mas sim dois homens cujos sentimentos violentos os assemelham a lobos: o lobo da serra, o homem traído que acaba por se tornar um assassino, e o lobo do mar que virá a ser morto pelo primeiro devido ao seu miserável comportamento. O homem, ou o lobo, que mata, serve-se como o animal dos seus dentes; o homem que morre, morre como o animal, com a garganta dilacerada. Por fim e nas últimas imagens, o filme sugere ainda uma cena de canibalismo: com efeito, um terceiro personagem, a quem chamam o Gardunho, devorador de ovelhas, surge na última cena para tomar posse do cadáver do assassinado.
Embora velho de mais de oitenta anos, o filme é de um realismo notável que o assemelha a qualquer congénere dos nossos dias. É um bom filme, digno de ainda hoje ser apreciado nas salas de cinema.

Guida Lami

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