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SECÇÃO: Cultura

O concelho de Seia na História do Cinema Mudo em Portugal (Parte I)

O filme “Os Lobos”, de Rino Lupo, 1923

No início da segunda do século XX, o realizador Cesare Rino Lupo (1884 – 1934?) realizou o filme “Os Lobos” , inspirado na peça de teatro com o mesmo nome da autoria de Francisco Lage e João Correia de Oliveira. A peça tinha um elenco notável, com destaque para Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro e a encenação de Inácio Peixoto. Para a concretização do filme escolheu locais na Serra da Estrela, nomeadamente, de Seia, São Romão, Senhora do Desterro e Valezim, mas também de Nelas, Leixões e da Foz do Douro, paisagem idílica. A produção do filme esteve a cargo da Ibéria Film, Lda e custou 250 contos.
Em Valezim, num pátio do Solar da Família Castelo Branco, foi instalado um dos estúdios de trabalho. Existe registo fotográfico que o comprova, sendo confirmado por reconhecimento no terreno e pelo testemunho de António Marques, valezinense com 99 anos de idade. Rino Lupo deixou para a posteridade as vivências durante a rodagem do filme no concelho de Seia. Eis o seu testemunho: “Venho encantado com a extraordinária beleza dos rincões da Serra da Estrela onde trabalhámos consecutivamente durante dois meses e meio. Admirei bastante a gentileza daquelas gentes de Seia e de Valezim desde as pessoas mais categorizadas aos mais humildes camponeses e pastores da serra. Todos me ofereceram espontaneamente os seus serviços e a sua cooperação sincera e leal, pelo que se tornou fácil a construção em plena serra de cinco «décors» sem lhe faltar o mínimo detalhe, assim como proporcionaram todas as facilidades na «mise-en-scène» dos seus exteriores. Aumentei à peça três personagens, refundia-a sem lhe alterar o espírito, de maneira a tornar a acção «cinematográfica».”
Manuel Félix Ribeiro evoca uma estreia oficial do filme no Theatro Circo, em Braga, não indicando a data. Procurou-se confirmar a sua veracidade, sem sucesso até ao momento. Uma parte do espólio do Theatro Circo esteve na posse da Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural (ASPA) e foi depositado na Torre de Menagem (então sede provisória da ASPA), mas perdeu-se devido a uma vaga de assaltos. Outra parte do espólio está depositada na Biblioteca Pública de Braga (BPB). Precisamente nesta instituição, folhearam-se as edições do Jornal Diário do Minho, correspondentes aos anos de 1923 a 1924 e não se encontrou qualquer referência à estreia oficial.
Recorreu-se também à douta colaboração de Tiago Baptista, conservador da Cinemateca Portuguesa – Arquivo Nacional das Imagens em Movimento (CP-ANIM) e autor de uma recente biografia de Rino Lupo , cuja investigação não encontrou provas de veracidade da estreia em Braga.
Posteriormente, através do historiador Luís Costa, foi possível precisar que em Março de 1922, no Theatro Circo, a Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro, levou à cena a peça de teatro “Os Lobos”.
O filme foi apresentado, em ante-estreia, a 2 de Maio de 1923, no “Jardim Passos Manuel” . A estreia ocorreu, no mesmo local, em 7 de Maio de 1923. Em Lisboa, a estreia ocorreu no Teatro São Luís, no dia 7 de Junho de 1923. Tratou-se da versão, designada por “versão de estreia”, com oito partes, infelizmente desconhecida até ao momento.
A 12 de Maio de 1924, deu-se a apresentação da “versão da reposição”, com seis partes, ocorrida no Salão Foz e no Chiado Terrasse (Lisboa).
Entre as duas versões existem diferenças, dado que a primeira tem cerca de 1800-2000m e a segunda cerca de 1500m. É desta segunda versão que existe uma cópia da época em nitrato de celulose, arquivada na CP-ANIM, desde 1937. Esta instituição afecta ao Ministério da Cultura procedeu ao restauro desta cópia em 1958 e em 2003.
Em 2003, nos Archives Françaises du film – CNC (Bois d´Arcy, França), foi encontrado um negativo original da versão de reposição do filme “Os Lobos”, datada de 1924.
Conforme documentação existente no Centro de Documentação da Cinemateca Portuguesa, é possível constatar no Arquivo Invicta Film, a existência de correspondência comprovativa do envio, entre 28 de Dezembro de 1922 e 5 de Fevereiro de 1923, de 8 caixas da película virgem negativa Pathé para dois dos locais de rodagem (Seia e Valezim). A este respeito, Tiago Baptista, esclareceu-nos que a correspondência expedida do Porto não indica a morada do destinatário, apenas as localidades.


(Continua)


Por: Carlos Manuel Dobreira

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